Além da tristeza, o enterro de Amauri Rodrigues de Souza, morto aos 23 anos ao sair de uma cachoeira no DF, na última segunda-feira (28/09), teve como marca a revolta e o medo da impunidade. O rapaz foi assassinado com um tiro no abdômen após uma tentativa de assalto. Ninguém foi preso. A reportagem é do Metrópoles

Carine Ferreira, de 23 anos, namorada do rapaz, viu tudo. Na manhã desta quarta-feira (30/9), ela estava inconsolável. Durante todo o velório, a jovem chorou e foi amparada por amigos. “A gente só queria curtir um dia na cachoeira”, disse ao Metrópoles, ainda aos prantos.

O casal de namorados esteve na Cachoeira 3 Quedas, no Setor Monjolo, no Gama, na tentativa de driblar o calor e a seca que assolam o Distrito Federal. Na saída, um homem, com o rosto tampado, os rendeu e anunciou o assalto. “Aconteceu tudo muito rápido, não deu para entender direito”, relembra Carine. Eles tiraram fotos na queda d’água, momentos antes da tragédia.

De acordo com a namorada do rapaz, outros banhistas apareceram para ajudar e só aí ela conseguiu chamar pela mãe, para levar o jovem para a unidade de pronto atendimento (UPA) do Recanto das Emas. Pouco tempo depois, o jovem não resistiu ao ferimento e faleceu.

No cemitério, onde amigos e familiares de Amauri se reuniram para dar adeus ao rapaz, jovens cantaram, rezaram e se apoiaram mutuamente. Pai do jovem, Belmiro de Souza prefere manter a esperança na justiça. Segundo ele, a polícia vai encontrar o assassino de seu filho e o suspeito será penalizado. “Vão pegar quem fez isso com meu filho”, diz ele.

Carine, porém, afirma que a prisão do assassino infelizmente não vai trazer nenhum alento ao seu coração. “Para mim, já tanto faz. Vai trazer o Amauri de volta? Não vai!”, lamenta.

Ao fim da cerimônia fúnebre, a mãe de Amauri falou com a reportagem. Marivalda Rodrigues definiu o filho como um espírito de luz. “Enterramos só a matéria, mas seu espírito de luz já tinha ido há muito tempo”, desabafou a mãe.

Casados há mais de 30 anos, Marinalva e Belmiro de Souza pedem empenho às autoridades competentes, para que outras famílias não passem pela dor que os dois sentem hoje. “A justiça pode até ser feita, mas só vai amenizar a dor, nunca acabar com ela. Vai durar para sempre”, diz Belmiro.

Há pouco mais de dois meses, o patriarca havia enterrado o irmão, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC), mas a tristeza que sente hoje é ainda maior. “A gente cria um filho esperando ser enterrado por ele, jamais que nós enterraremos um”, finaliza.

“Nosso amuleto”

Amauri era estagiário de garçom no restaurante Coco Bambu, em Águas Claras. No cemitério, Wellington Silva, 28 anos, relembra da admiração que tinha pelo companheiro de profissão. “Ele era nosso amuleto. Uma pessoa muito humilde, muito humana”, conta.

Último a ver Amauri no sábado, o que viria a ser o último dia de trabalho do jovem, Wellington recorda da oportunidade em que a humildade do colega nunca esteve tão evidente. “Mesmo mais novo que eu, ele comprou uma barra de chocolate, dividiu e me deu o maior pedaço. Ele disse: ‘Você merece o maior. Agora come, vamos trabalhar que a gente vai ser promovido juntos‘”.

Segundo Felipe, irmão de Amauri, o jovem se formaria neste semestre e contou que seria efetivado no trabalho e seguia firme com o sonho de se tornar chef de cozinha no restaurante onde trabalhava.

Nos últimos dois anos, Amauri trabalhou como aprendiz de garçom. Estava mesmo prestes a ser efetivado, conforme nota de pesar divulgada nessa terça-feira (29/9) pelo estabelecimento.