Por Michelle Jamrisko e Netty Idayu Ismail, da Bloomberg

IBOVESPA: a bolsa recuperou os 80 mil pontos após uma semana marcada por volatilidade. / Germano Luders (Germano Luders/Exame)

Índices em alta estão em desacordo com as perspectivas pessimistas para a economia, especialmente da América Latina, sul da Ásia e África.

Uma desconexão está crescendo nos mercados emergentes, que raramente enfrentaram condições econômicas tão adversas e cujos ativos estão prestes a completar o melhor trimestre em uma década.

O índice MSCI Emerging Markets está a caminho de registrar seu melhor ganho trimestral desde 2010, enquanto títulos em dólar seguem para o maior avanço trimestral desde a recuperação da crise financeira global de 2009. A onda de estímulos dos bancos centrais que varre o mundo deu suporte ao apetite ao risco.

As moedas emergentes subiram cerca de 2% nos últimos três meses, com a rupia indonésia, o rublo russo e o peso colombiano na liderança. Os fluxos de capital estão mostrando um “retorno modesto” após as saídas no início de 2020, de acordo com relatório de 24 de junho do Instituto de Finanças Internacionais (IFI).

Tudo isso está em desacordo com as perspectivas pessimistas, especialmente para as economias da América Latina, sul da Ásia e África, onde os surtos de vírus correm o risco de ficar fora de controle. As projeções mais recentes do FMI mostram que, embora a China possa registrar crescimento este ano, as estimativas para México, Argentina, Brasil e África do Sul foram reduzidas a uma contração de 8% ou mais.

A enorme divisão entre ganhos de mercado e os problemas econômicos traz risco para os retorno nos próximos meses, o que aumentaria os ventos contrários à recuperação.

“Embora a ampla liquidez e o ambiente de juros baixos continuem a fornecer aos emergentes a atração de cupons altos, à medida que o processo de recuperação é adiado, acho que as considerações de risco estão piorando para os mercados emergentes como uma classe”, disse Carmen Reinhart, economista-chefe do Banco Mundial, na conferência Bloomberg Invest Global da semana passada.

O Banco Mundial prevê que os países emergentes e em desenvolvimento encolherão 2,5% – o pior desempenho da base de dados que começa em 1960.

“Espero um dia de acerto de contas em que os investidores estrangeiros concluirão que não estão sendo compensados pelos riscos nos países emergentes”, afirmou Rob Subbaraman, chefe global de pesquisa macro da Nomura Holdings Inc. em Cingapura.

A situação não é uniformemente desastrosa para os mercados emergentes. Jim O’Neill, presidente da Chatham House, tem visão negativa sobre a América Latina e a Índia, mas ele disse à Bloomberg Television que vê uma chance de que “essa crise possa acelerar este século de domínio asiático”, pois a China e outras economias da região se mostram hábeis em administrar a pandemia.

Os ativos emergentes ainda podem ter um “bom” segundo semestre, embora seja difícil repetir os ganhos até agora, disse Eric Stein, co-diretor de renda fixa global da Eaton Vance Corp., com sede em Boston, que administra cerca de US$ 465 bilhões. Stein classificou países como o Brasil como altamente arriscados, uma vez que mais alívio da política monetária poderia significar saídas “desordenadas”.

Os emergentes que investiram no estímulo fiscal – agora em torno de US$ 11 trilhões para todos os governos em todo o mundo, estima o FMI – têm menos espaço para gastar sem desencadear preocupações com dívidas incontroláveis. E muitos de seus bancos centrais já estão com taxas de juros baixas e, portanto, têm menos espaço para agir.

“Acho que os emergentes estarão em uma situação muito difícil daqui para frente”, disse Reinhart. Com informações do site: https://exame.com/mercados/